A TRADUÇÃO “DOMESTICADA” de GABRIELA CRAVO E CANELA

PARA A LÍNGUA INGLESA

 

Licia Pedreira - UNIFACS

 

Um belo dia de primavera, em 1925, uma Gabriela desgrenhada chega ao porto marítimo de Ilhéus e arranja um emprego num estabelecimento local desesperadamente necessitado de cozinheira. Logo o proprietário descobre que é dono do melhor negócio da cidade e que tem como empregada a mulher mais paquerada.[1]

 

O trecho que serve de epígrafe não é um anúncio de soap operaou fotonovela, mas a sinopse do romance de Jorge Amado na sua versão em língua inglesa, impressa na quarta capa de uma de suas múltiplas edições norte-americanas. Um comentário do Reader’s Catalog caracteriza o romance como “talvez o melhor exemplo da ficção cômica e sensual de Amado”, enquanto a Atlantic Monthly, revista ligada ao Modernismo, o considera "encantador, uma comédia animada, plausível, divertida”[2]. Comentários desta natureza, aliados às observações de leitores, onde pontificam qualificativos como “emocionante”, “absorvente”, “divertido”, “leitura de verão leve e imaginosa”, “sentimental” e “exótico”, geralmente palavras relacionadasà literatura de massa, denunciam a maneira como o romance é divulgado e lido nos Estados Unidos e incitam à investigação sobre a origem dessa visão simplificada e redutora que os divulgadores repassam para o leitor potencial. Os caminhos conduzem inevitavelmente à tradução e às condições de sua produção. Como adverte LawrenceVenuti (1998), a tradução de um bestsellertende a revelar muito mais sobre a cultura doméstica para a qual foi produzida do que a cultura estrangeira que é levada a representar[3].

No início da década de 60, a atenção do editor Alfred Knopf é atraída pelo romance Gabriela, cravo e canela em função do seu grande sucesso editorial no Brasil. Cerca de quinze anos antes, o editor norte-americano já havia apostado em outro romance de Jorge Amado, Terras do sem fim, cuja versão, confiada ao prestigiado tradutor Samuel Putnam, tornou-se leitura obrigatória nos cursos de literatura latino-americana oferecidos pelas universidades do país. O momento do lançamento da segunda obra de Amado nosEstados Unidos era propício para leituras que extrapolavam os paradigmas nacionais e se mostravam mais consumíveis que as narrativas experimentalistas de Borges e Cortázar, traduzidas na década anterior, e que deflagraram o boomda literatura latino-americana, produzindo questionamentos e até mesmo mudanças nos cânones literários da língua inglesa. Na esteira do sucesso dessas obras, a editora lança Gabriela, cravo e canela, destinado a tornar-se o primeiro bestseller brasileiro em língua inglesa. Apresentando uma forma diferente de literatura, uma narrativa de base real e verossímil, à qual se alia a exploração característica que faz o autor das qualidades "exóticas" da cultura baiana, o romance recebe uma tradução capaz de atrair um grande número de leitores anglófonos.

A época do lançamento, 1962, marca-se por uma grande apreensão dos Estados Unidos em relação à América Latina face às suas rápidas transformações e inquietações sociais. A revolução cubana tem ampla repercussão no Cone Sul, forçando o olhar norte-americano a voltar-se na direção do sub-continente, concentrando sua preocupação maior na nação brasileira, a maior potência latino-americana, cujas tentativas de tornar-se independente dos interesses ianques oferecem riscos para o governo dos Estados Unidos, impondo-lhe a necessidade de um conhecimento maior do nosso país e de seus vizinhos e a conveniência de construir para eles novas imagens, diametralmente opostas àquelas que o povo norte-americano possuía até então. Em conseqüência, ocorrerá o fenômeno descrito pelo sociólogo marxista Irving L. Horowitz (1964) como a "mais dramática mudança de visão e sentimento ocorrida desde o início da Guerra Fria"[4]. Seus responsáveis seriam os numerosos especialistas em relações públicas mandados para a América do Sul, que transformaram em pouco tempo os povos antes descritos como “ignorantes”, “desleixados” e “indolentes” em animados e descontraídos. Na volta para casa, assinala Horowitz, as caravanas de escritores, jornalistas e cronistas esportivos enviados para cá constróem a imagem do Brasil como a colônia de férias ideal. O brasileiro tem seu perfil redesenhado pela revista Look como um povo simpático e dançante que adora tomar cafezinho, dá sempre um jeito em tudo e prefere a praia às passeatas políticas. Essa transformação encomendada constitui uma estratégia para resolver a questão do crescente antagonismo entre brasileiros e americanos, que passa a ser definida como um problema de falta de comunicação. Reforça essa imagem uma visão pública do país como “uma vastidão pitorescamente antiquada”[5], produzida anteriormente pelos escritos acadêmicos, até então monopolizados pelos antropólogos:

 

Atitudes nostálgicas sobre o Brasil são abundantes, como se o sectarismo, o nacionalismo ou o socialismo não pudessem vicejar em um mundo encantador de grandes casas de fazenda e pequenas comunidades auto-suficientes e estáveis, onde todos passam a vida ajudando-se mutuamente.[6]

 

A tradução possui grande poder na construção de representações de culturas estrangeiras, como assinala Venuti (1998), devido à grande influência que exerce na formação de identidades culturais, podendo, ao criar estereótipos, "anexar estima ou estigma a grupos específicos, sejam eles étnicos, raciais ou nacionais"[7]. Assim, o lançamento da versão em língua inglesa de Gabriela cravo e canela em 1962 vem acrescentar importante contribuição na construção dessa imagem do Brasil lastreada no "exótico". Destinado a tornar-se um bestseller mesmo antes de ser traduzido, o romance recebe uma versão modelada e correspondente à visão da modernidade que hierarquizou a natureza à cultura, criando no leitor a expectativa de travar um encontro com um discurso da natureza, do paraíso selvagem e com a vida em uma sociedade da periferia. Dessa maneira, promovendo o primeiro contacto da maioria de seus leitores norte-americanos não apenas com a obra de Jorge Amado, mas com a ficção brasileira, editor e tradutores concorrem para a criação de uma imagem de terra violenta, colorida e exótica, povoada por uma gente que se caracteriza por um erotismo sem rédeas. Tal imagem é inteiramente compatível com o projeto político apontado por Horowitz de transformar “mestiços e preguiçosos” em alegres habitantes de um paraíso tropical. Herdeiros do mito europeu que inscreve os povos e nações da América Latina na categoria de natureza, os norte-americanos estão alinhados aos demais países ocidentais hegemônicos nesse modelo de representação.

Os tradutores de Gabriela cravo e canela, William Grossman e James Taylor, elegem o discurso fluente como estratégia tradutória na transposição do romance. Presente na tradição de língua inglesa desde o início da idade moderna, a fluência institui a domesticação da tradução por seu efeito de transparência enganosa, a qual endossando uma teoria da linguagem que privilegia a comunicação, manifestada na prática pela ênfase sobre a compreensão imediata e o significado, demonstra-se uma estratégia discursiva ideal para a tradução domesticadora, servindo também à ocultação dessa violência.

O exame da opção tradutória de Grossman e Taylor remete a Lefévère(1992), quando enfatiza a importância de estudarem-se as condições sociais, literárias e ideológicas que levam um tradutor a realizar seu trabalho de uma determinada maneira, juntamente com os objetivos que pretendia alcançar ao fazer sua escolha.[8] Uma tradução produzida para tornar-se bestseller nos Estados Unidos não poderia deixar de preocupar-se com o leitor virtual, herdeiro da tradição puritana que por várias gerações se tornou um paradigma americano para mensagens estéticas, caracterizada pelo desprezo votado ao estilo e à forma e fortemente inclinada a valorizar a clareza e a capacidade de difusão das mensagens literárias.

Em sua visível ênfase sobre a comunicação e a referência em detrimento da forma, Grossman e Taylor mantêm uma homogeneidade discursiva, produzindo uma tradução de inteligibilidade imediata que resulta numa pseudo-transparência, criando uma ilusão de realidade com a qual o leitor poderá identificar-se. O discurso fluente, contudo, produz sobre o texto de Jorge Amado um efeito redutor, através da subtração de suas peculiaridades lingüísticas e culturais, da eliminação da polissemia, dos idiomatismos, arcaísmos e regionalismos, e da neutralização do efeito dos significantes, desviando a atenção do leitor doméstico da linguagem para a trama.

O cotejo entre o original e a tradução da quarta parte do romance, intitulado O luar de Gabriela, evidencia processos tradutórios orientados pela transparência, com a sobreposição da busca do sentido à recuperação do papel desempenhado pelo significante no texto original, destacando-se como procedimentos mais freqüentes a compensação, a mudança de registro e a omissão. A ampla utilização deste último, que corresponde a trinta por cento das seqüências cotejadas, permite questionar a observação de Clifford Landers, tradutor de São Jorge dosIlhéus (The Golden Harvest, 1992), de que “para o tradutor, omitir é confessar a sua insuficiência”[9]. A falta de familiaridade de Grossman e Taylor com outros dialetos do português do Brasil além da língua padrão torna-se evidente no texto traduzido, e já havia sido assinalada em relação ao primeiro por Nahum Sirotsky, que nesse sentido critica também o trabalho de Grossman na versão de Pedro Mico, de Antônio Callado[10]. Contudo, a falta de parcimônia na utilização da omissão parece explicar-se melhor por uma preocupação dos tradutores para com o público alvo que, avesso a estranhamentos, requeria uma linguagem inteiramente reconhecível e um texto inscrito com os valores políticos e culturais prevalentes no contexto doméstico. As omissões na tradução de seqüências relacionadas à sexualidade ou à religião revelam resquícios inequívocos do puritanismo que Jean Pierre Fichou (1987) considera ainda "profundamente arraigado no mundo secular e inserido na vida cotidiana, na sociedade e no sentimento coletivo"[11] da América. É a preocupação com esse leitor “filho de Calvino” que parece orientar os tradutores quando efetuam o apagamento de vários significados embutidos no trecho em que o narrador se refere a um fato não de todo incomum no Nordeste da época, segundo o qual alguns padres viviam maritalmente com “comadres”, adotando legalmente e batizando os próprios filhos: ...dez {filhos} perfilhados, registrados e batizados é transposto como ...children other thanthose he acknowledged... (“outros filhos além dos que ele reconhecia”) que de alguma forma ameniza uma transgressão inadmissível para o puritanismo, que exige o máximo de rigor e austeridade dos representantes das igrejas cristãs.

Realizada numa época em que os parâmetros estético-formais do modernismo ainda mantêm o predomínio no julgamento da obra literária, a tradução de Gabriela cravo e canela parece colocar o romance no nível de estética de segunda classe, negando o valor poético de sua linguagem, minimizando-o enquanto documento social e reduzindo-o a mera história de amor folhetinesca que se desenrola num cenário tropical e exótico. Além de traços lingüísticos e culturais omitidos ou neutralizados, o foco narrativo é alterado, transformando-se a onisciência seletiva múltipla em narrativa autoral, o que sugere certa falta de respeito para com o texto original. As decisões dos tradutores, aparentemente injustificadas, talvez se expliquem em razão de um projeto inteiramente voltado para o público alvo, o que se pode ilustrar com as falas do sapateiro Felipe, em espanhol no original, traduzidas para o inglês, possivelmente como forma de desviar a atenção de sua conotação ideológica: Sarraceno, burgues, súcio torna-se Filthy Saracen, bourgeois. O deslocamento de Filthy (sujo) de sua função de vocativo para a de modificador de Saracendenuncia ainda o etnocentrismo dos tradutores, que se torna mais claro com o acréscimo efetuado na seqüência ... o árabe parava para cumprimentar os amigos, traduzida por The Arabclimbed ungracefully up the steps of the town hall,onde a inserção gratuitadeungracefully (deselegantemente, desengonçadamente), além de caracterizar violência tradutória, exibe uma imagem do oriental com um traço de negatividade, fortalecendo um estereótipo étnico desqualificador, resultante da imagem construída pelo imperialismo franco-britânico. Uma outra passagem do texto oferece uma representação do árabe aparentemente interpretada pelos tradutores sob a mesma ótica, razão provável da omissão de seus traços mais significativos, que afeta a caracterização de Nacib: Porque toda aquela fanfarronada de Nacib, suas histórias terríveis da Síria, a mulher picadinha a faca, o amante capado a navalha, era tudo da boca pra fora... For Nacib´s callousness to cruelty was as fictitious as his fierce stories. Os tradutores reduziram o material textual original, condensando os significados de mulher picadinha afaca e amante capado a navalha em fiercestories.

Um bestseller deve ser capaz de circular entre todos os grupos sociais. Assim, a amenização do vocativo negro, utilizado na fala de um coronel e traduzido por black man (em vez de nigger, um termo de gíriadesqualificador), bem como de carapinha, transposto como head, em vez doequivalente burr, pode ter resultado de uma preocupação dos tradutores em relação à aceitação de seu trabalho. Naquela época, marcada por grande efervescência do movimento em prol dos direitos civis dos negros norte-americanos sob a liderança de Martin Luther King, não seria descabido temer que esses termos pudessem ser lidos como representativos do próprio preconceito doméstico, o que comprometeria a obviamente pretendida ilusão de transparência, pois já se difundia nos Estados Unidos uma visão do Brasil como o paraíso da democracia racial.

O papel da ideologia na modelagem da tradução ressalta na transposição da seqüência ...mesmo os coronéis do cacau, donos de imensas extensões de terra e da vida dos homenssobre ela curvados... como ...even the cacao colonels who owned immense tracts of land andcontrolled the lives of hundreds of men...que disfarça a representação das relações de trabalho e as conhecidas inclinações políticas do autor.

O Brasil representado na tradução é uma terra pitoresca e estagnada, cuja posição de dependência está livre de ameaça. Para fortalecer essa imagem, palavras, seqüências, falas conotadoras de ativismo político passam por um processo de neutralização no texto da lingua/cultura de chegada. Assim, a noite militante de Gabriela torna-se uma adventurous night (em vez de night of activism, por exemplo).

Digna de nota é ainda a versão da frase Nenhuma mudança na sociedade é feita sem sangue, em que mudança na sociedade é traduzida por upheaval, termo que inclui as noções de agitação, desordem e violência.

 As estratégias de domesticação dirigem-se com freqüência às passagens relacionadas à sexualidade, que são quase sempre aplainadas, quando não inteiramente omitidas, como por exemplo Gabriela riria contente, diria a gemer... traduzido como Gabriela would laugh and say...

A sensualidade expressa em metáforas evocativas de olfato e paladar também é normalmente eliminada no texto traduzido, a começar pelo capítulo DOS SABORESE DISSABORES DO MATRIMÔNIO, que Grossman e Taylor transformaram em OF THE JOYS AND SORROWS OF MARRIED LIFE, embora dispusessemde outras opções, como The Sweet and Sour of Matrimony, maispróxima dos significados pretendidos pelo autor. A pergunta que Gabriela dirige a Nacib: Não gosta mais do meu gosto? recebe uma tradução aplainada com Don´t you like the way I am any more? Enquanto a frase do monólogo de Nacib ...espiara cara dela, sentir seucheiro... é traduzida como ...just to see her, just once to see her face. Too hear her laugh.A preocupação com o abrandamento do tema leva os tradutores a desfazer disfemismos, eliminando trechos às vezes extensos para ocultar significados inaceitáveis para o leitor “WASP”,( White Anglo-Saxon Protestant) o que se torna evidente na transposição da passagem ...Segurou-acom força, marcando de roxo a pele cor de canela:

– Cachorra! como You little bitch!”.Aquia omissão oculta a representação da violência presente no texto original e a força do insulto é minimizada pelo diminutivo little.

Um último exemplo da redução do texto aos valores da cultura doméstica é fornecidopelo tratamento dispensado aos sobrenomes: Raimundo Mendes Falcãotorna-se apenas Raimundo Falcão na língua da tradução, seguindo o costume anglo-saxônico de desprezar o nome materno.

Através de escolhas léxicas, sintáticas e discursivas, Grossman e Taylor impõem sua interpretação do texto de Jorge Amado. Suas opções, provavelmente conscientes, parecem Ter sido utilizadas com o objetivo de subtrair o componente de análise social do texto original, reduzindo-o a uma trama característica de bestseller, produtora de uma imagem identitária da cultura brasileira/baiana plasmada no “exótico”. Tal como os cientistas sociais e especialistas em relações públicas, editores e tradutores contribuem implicitamente para afastar a inquietação do povo norte-americano em relação à sua hegemonia, face às mudanças em curso na América Latina, notadamente no Brasil, oferecendo-lhes uma obra de ficção que representa a idéia forjada pelo imaginário doméstico para os povos e países latino-americanos, cuja defasagem econômica , política e cultural é acentuada pelo cenário de um país ultrapassado e nostálgico, ainda vivendo de grandes latifúndios, coronéis e seus capangas, um aliado potencial contra a ameaça do “comunismo crioulo” que começava a esboçar-se ao sul do equador.



[1]BARNES AND NOBLE. Via Internet. Disponível no URL Http//:www.bn.com

[2] ibid.

[3]VENUTI , Lawrence. Scandals of Translation. New York: Routledge, 1998, p. 125

[4] HOROWITZ, Irving L.A revolution in Brazil: politics and society in a developing nation. New York: E.P.Dutton& Co., Inc., 1964, p.5

[5] Id., ibid., p.1-14 passim

[6] Id. ibid., p.6

[7] VENUTI, L. op. cit., p.67

[8] LÉFEVÉRE, André. in BASSNETT, Susan e LEFÉVÉRE, André(ed.). Translation/History/Culture. NewYork/London: Routledge, 1992, p.81

[9] LANDERS, Clifford. Um grapiúna no país do carnaval . Anais: ATAS DO PRIMEIRO SIMPÓSIO SOBREJORGE AMADO. Salvador:EDUFBA/Casa de Palavras, 2000, p.105

[10] SIROTSKY, Nahum. A Tarde, 12 set. 1962

[11] FICHOU, Jean Pierre. A Civilização americana. Campinas: Papirus, 1987, p. 87-88